domingo, 26 de outubro de 2014

Deve ser assim... É capaz de ser assim.

É difícil ver bebés. Não é ver bebés de uma forma geral, mas é difícil porque o único pensamento que ainda me ocorre é, "porque a mim" ...
Eu não sou um caso isolado, antes fosse, todos os dias conheço mulheres que, por diversos motivos, passaram pelo mesmo que eu, mas continuo a sentir-me solitária na minha dor. Porque a sensação que eu tenho é que todas as mulheres do mundo têm filhos sem problemas, que só eu perdi a minha filha... Eu sei que não é assim, mas é o que eu sinto...
No sábado fazes 7 meses. São dias menos bons para a mamã.
Ontem estava a falar com o avô Augusto... A família do papá já perdeu muitas pessoas... Ontem a mamã chorou quando se falou do primo Nuno... Porque sabe o que a tia Milu sofreu. E porque ela se entregou e deixou-se ir. Às vezes também tenho vontade de me deixar ir... Enfim.
No sábado fazes 7 meses. Já disse isso, não já? São dias menos bons para a mamã... E eu sei que tu compreendes.

Amo-te filha!... <3

Beijinho da mãe <3

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Não são meus, mas dói sempre...

Ontem, "conheci" mais duas mamãs que perderam também os seus bebés...
Chorei... Cada vez que vejo uma nova história, choro. Porque não desejo ao meu pior inimigo aquilo que eu passei, e ainda passo. Não desejo a ninguém o vazio que a vossa partida nos deixa. Não desejo a ninguém a falta de esperança que nos invade. Não desejo a ninguém o medo do futuro que às vezes nos assola. Não desejo a ninguém as saudades que tenho tuas, e a dor que sinto ao saber que nunca vou ter uma segunda oportunidade contigo... Com outra criança sim, mas nunca contigo.
A vida não é justa.
A mãe já te disse isso, não disse Nô? A vida não é justa.
Ninguém deveria passar pela dor que é perder um filho, ninguém...
Ontem reparei na Judite de Sousa... O olhar dela... É vazio. É triste. Reconheci nela o meu olhar, a minha dor... Não é o olhar que eu tenho todos os dias, mas é o olhar que tenho naqueles dias que correm menos bem...

Amo-te Pipocas!.. <3

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

The Angriest Man in Brooklyn

Ontem, o papá e mamã armaram-se em casal de meia idade, ou então em senhoras de meia idade, e foram ao cinema.
Fomos ver o último filme do Robin Williams... E fomos justamente por isso, não imaginávamos que era um filme tão bom...
A história é simples, e até um pouco "batida", mas a verdade é que ninguém pensa muito no assunto, até se ver dentro do mesmo problema, até se ver de frente com a morte.
A morte, vamos lá ver... Não é assim tão má. Tudo depende de como olhamos para ela. Uma morte prematura, num bebé como tu, numa criança, ou mesmo num jovem adulto, choca sempre... Em uma pessoa mais velha, é algo mais aceitável, "porque afinal a pessoa já viveu toda uma vida"... Quem fica, quer numa morte prematura, quer de uma pessoa idosa, sofre sempre, disso não temos dúvidas.
Boa parte das pessoas não sabe quando, ou como irá morrer, o que é extremamente positivo. Porque se soubéssemos, ia ser uma loucura pegada. Mas quando acontecem situações como a do filme... Um aneurisma, inoperável. Não sabes quando vais morrer, apenas que vais, e em breve. Faz-te parar. Paras para repensar toda a tua vida, no que tens sido, no que de facto é importante, no que queres fazer nestes últimos tempos que te restam aqui deste lado. É uma chapada da vida. Porque a nós?! Ninguém sabe responder. Mas se soubermos pegar neste limão azedo e fazer uma limonada... Podemos aproveitar para tentar consertar os nossos erros. Ou então minimizar as consequências. Foi o que o personagem principal fez.
Trazendo isso para a nossa história, não fui eu que morri, literalmente..
Mas levaste parte de mim. Por tanto, é como se eu tivesse morrido também. Fui confrontada com a tal morte... E descobri que, afinal, não é tão má assim. Tenho saudades tuas, muitas, dava tudo para ter-te aqui comigo, mas seria ingrata em não reconhecer que a tua morte, a tua partida, fez de mim uma pessoa melhor. Porque cheguei ao ponto em que tive que rever as minhas prioridades, o que de facto queria para mim, se eu era de facto quem eu era antes de partires... E estou a tornar-me uma pessoa melhor. Dói, como dói... Mas não há vitória sem luta, e às vezes, às vezes os ensinamentos são assim, duros... A boa notícia, é que nunca mais nos esquecemos :)
Ter sido apanhada nesta "rasteira da vida", foi a pior, e ao mesmo tempo, a melhor coisa que já me aconteceu... Como é que sei isso?! Não sei, ainda estou a aprender e tenho um longo caminho pela frente. Sei que vão haver momentos em que vou ler isto e vou dizer que estava louca quando o escrevi... Vai doer, vai continuar a doer, sempre... Mas com esta dor também vou aprender, vou crescer... E vou ser alguém melhor. Por ti. Por mim. Pelo papá. Pelo teu mano que ainda virá.
Assim, quando chegar a minha hora de partir e ir ter contigo, vou poder fechar os olhos e descansar... E ter a certeza de que dei o meu melhor.

Amo-te Pipocas!... <3

Beijinho da Mãe <3

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A melhor maneira de exorcizar a nossa dor, é ajudar a quem precisa...

Já há muito tempo que ando com vontade de ajudar a algum projecto... Pensei nos animais,  sabes como a mãe é louca por animais, mas ainda não era isso... Pensei em algo relacionado com crianças carenciadas , mas tendo em conta o que nós passamos... Conheço as minhas limitações e não tenho vergonha de o admitir, às vezes tenho sentimentos menos nobres por quem não tem cuidado com o seu bebé... Porque eu tive todos e tu partiste. Não é justo. E eu sei que a vida não é justa, mas também sei até onde vão os meus limites, e não vou forçar algo que a partida sei que me vai trazer muita dor.
Lembraste da Nonô? Eu sei que sim... A mãe dela criou uma associação muito especial, para ajudar famílias de meninos com cancro como a Nonô... A Nonô está aí ao pé de ti desde há um mês... E mamã dela, apesar de estar destroçada, continua a fazer o bem, porque tenho a certeza de que lhe ajuda a ultrapassar a dor da partida da Nonô.
Ela disse que vão precisar de voluntários, e mãe vai se "alistar" :)
Qual é a melhor maneira de honrar-te, senão a fazer o bem e a ajudar a quem precisa? Vai ajudar também ao nosso projecto... Porque vou ter a cabeça ocupada :)
Ah Princesa... Obrigada por me teres escolhido para ser a tua mamã. Obrigada por me tornares num ser humano melhor, apesar da dor da tua partida. Obrigada filha, és o meu Tesouro <3

Amo-te boneca, daqui até ao céu e voltar!... <3